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O Império do Caos – A lógica da Apropriação

Quarta, 11 Abril 2018 11:13

Sobre a destituição de direitos no Brasil

Magnólia Azevedo Said
Educadora Feminista, Advogada e técnica do Esplar

Desde a intervenção militar no Rio de Janeiro, os acontecimentos que permearam a execução da Vereadora Marielle Franco, o ataque à caravana do Lula e sua prisão, vivemos ao sabor de contra-informações e do que falam os porta-vozes de uma trama urdida para apagar de vez, o sonho de uma sociedade que poderia ser reconstruída em base a valores de justiça e igualdade.

Os reais planejadores, organizadores e incentivadores da volta do Estado de Exceção, estão articulados para além dos medíocres Bolsonaros, Flávios Rocha e seus seguidores e de alguns dos chamados “novos movimentos” que aprenderam com nossas experiências e estão fazendo para o mal, o que os movimentos sociais de base sindical e agrícola faziam entre as décadas de 1960 e 1990 : manifestações de rua, barricadas, passeatas....

O muito bem apropriado conceito de “guerra híbrida” utilizado pelo jornalista investigativo Pepe Escobar assim como por estudiosos do campo da ciência política, nos mostra que no Brasil atual ela está fortemente calçada pelas forças executoras da “cartilha” expedida pelo Estado norteamericano, onde se articulam os poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e midiático.

Em verdade, o terreno foi aos poucos se conformando para ajustar-se às silenciosas intervenções nas estruturas do aparelho de Estado. Salvo exceções, movimentos foram deixando de lutar por “causas sociais”. As mídias alternativas, sem contrapontos acessíveis ao entendimento da maior parte da população oprimida. O Banco Mundial e o Banco Interamericano, pondo em prática suas estratégias de assistência ao Brasil sem contestação e, mais do que orientar, foram consolidando um programa de desenvolvimento nas três esferas de governo, acordado no “Novo Consenso de Washington” – as 10 medidas de Ajuste. A perspectiva? Um alinhamento completo ao governo norteamericano e ao receituário do FMI, fortalecido pela classe empresarial, com o Estado brasileiro subjugado a tal agenda.

O sistema financeiro e as grandes corporações foram ficando cada vez mais à vontade para assumirem a tutela dos bens naturais: água, terra, minérios, petróleo, garantindo lucratividade e acumulação para corporações e investidores nacionais e estrangeiros. O Estado brasileiro praticamente deixa de ter um gestor – os governos – para dar lugar a grupos internacionais na definição das políticas de desenvolvimento.

Por que então, setores da academia e de grupos formadores de opinião, estão a cobrar das elites golpistas e/ou coniventes com o golpismo, palavras condenatórias a esse circo de horrores em que grandes plateias assistem, a todo instante, às mais horrrendas vivências de pessoas com a tortura, o tráfico, o vício, a morte, as violências, a fome, as agressões, a mendicância, os maus tratos... ? Ora, a crítica que tem sido feita até então, é tangencial, não tocando a fundo nas questões que deram origem a esse estado de coisas. A mídia surfa nesse desserviço, alienando, reforçando o modelo. Essas elites sabem que nunca serão vítimas da barbárie, pois detém as condições e os meios a seus salvo-condutos. Para estas, a ideia de Nação é o lugar onde possam viver como os reis da Antiguidade (fartura, escravos e mulheres nos palácios – migalhas, circo e exército para os pobres); quanto à classe média, esta repete como papagaio, o que é veiculado na mídia conservadora como narrativa confiável, não alcançando a dimensão dos agravos. Mesmo quando desconfia de tais narrativas ou não concorda com o atual estado de coisas, cala-se frente ao medo de perder o mínimo conquistado (bens materiais e facilidades proporcionadas pelo sistema). É nesse contexto que não são visibilizadas ou consideradas as violências ao estado de direito, a exemplo do genocídio lento e gradual dos povos indígenas.

Marielle foi executada há quase um mês e, até agora, só encenação dos órgãos de segurança oficialmente empenhados na identificação de seus matadores.

O ódio está sendo disseminado e alimentado no Facebook e outras redes sociais, nas ruas, seja de forma explícita (agredindo, matando, xingando, roubando) seja na forma daquela misoginia sutil (arrogâncias, olhares raivosos, estupidez, iniciativas de pessoas/grupos que detém privilégios, impeditivas de convivência com pensamentos diferentes... Foi criada até uma ideologia para justificar a repulsa à perda dos privilégios assentados no patriarcado, a chamada “Ideologia de Gênero”. Ao lado disso, assiste-se a um verdadeiro retrocesso em direitos que tinham como fim superar as desigualdades.

Na verdade, todos os primados que constituíram uma sociedade de classes, racista, patrimonialista e machista, ainda encontram-se cristalizados: é a menina que cresce com o sonho de princesa, é a mulher que não deve ter direitos iguais aos homens, é a concepção estreita do conceito de família, é o regime de raiz escravocrata no campo, incorporado à cidade.

Diante de tudo isso, a palavra-chave em tempos de trevas só pode ser uma: ORGANIZAÇÃO. E para chegarmos aí, é preciso: unidade, empatia, respeito e retomada de processos que levem a população oprimida a entender as mudanças/transformações que ocorreram nos últimos 20 anos no plano internacional, que afetam as economias regional e local e as mantém na situação de opressão. Se diminuirmos as distâncias entre nós, poderá sair daí, uma estratégia de lutas, resistências e de projetos emancipadores, onde maestras e maestros possam harmonizar seus mecanismos e instrumentos de maneira horizontal. O tempo de um só maestro não cabe mais. Sem participação real na esfera política não existe democracia. São muitas frentes para intervirmos e temos a obrigação moral e política, em respeito à memória de nossas lutadoras e lutadores, de suplantar as estratégias dos opressores, sem lhes dar trégua.

Os esforços das atuais lideranças do campo da esquerda, devem seguir pelo caminho paulofreiriano de traduzir criticamente com a população, o que entra cotidianamente pelos olhos e ouvidos da mesma. O caminho em que sejamos capazes de olhar o que não se olha e agir diante das injustiças. Não há como negar que, no geral, nossas atitudes/ações têm sido tão somente reativas.

Portanto, sejamos subversivas e subversivos. Somente assim conseguiremos sub-verter essa ordem injusta, esse caos oficializado e naturalizado.

Sejamos todas e todos Marielle.

Fortaleza, 9 de abril de 2018