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Jornalistas europeus visitaram o Esplar para uma roda de conversa sobre algodão agroecológico com o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima, fundador da entidade

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Agricultores familiares que cultivam algodão agroecológico no sertão do Ceará integram um ciclo de moda sustentável e comércio justo entre Brasil e França. O cultivo do algodão cearense ganhou nova perspectiva com a visita do empresário francês François-Ghislain Morillion, em 2004. O francês buscou o Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria para intermediar a compra de algodão agroecológico para a fabricação de tênis destinados aos consumidores europeus. Juntamente com seu sócio Sébastien Kopp, François havia fundado a empresa Veja Fair Trade, posteriormente com filial no Brasil batizada de Vert Shoes.

Para iniciar a produção, a empresa dependia de encontrar fornecedores de algodão ecológico. A solução foi encontrada no Ceará, onde agricultores de Tauá colhiam esse produto para comercializá-lo no mercado nacional há 11 anos. No entanto, antes de chegarem ao Ceará, eles rodaram o mundo visitando vários países para conhecer experiências de produção de algodão com comércio justo e ficaram bastante decepcionados com o que encontraram: condições de trabalho bastante precárias. “Percebemos que a globalização estava errada. Esses trabalhadores estavam fazendo as roupas que estávamos vestindo todos os dias; Roupas que as pessoas que conhecíamos, nossas famílias, nossos amigos, usavam todos os dias. Algo realmente deu errado”, relembram os franceses na página oficial da empresa.

Após a aquisição das três primeiras toneladas de algodão agroecológico cearense, fornecido pela Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), a Veja produziu o primeiro lote de tênis da marca francesa no Rio Grande do Sul, com cinco mil pares lançados em Paris em janeiro de 2005. “No Nordeste brasileiro, descobrimos os princípios por trás da agroecologia: tornar o solo mais rico após a colheita, em vez de prejudicá-lo. No primeiro contrato, pagamos o dobro do preço de mercado. Eles (os agricultores) não entenderam, achavam estranho”, relatam os franceses. “Três toneladas de algodão orgânico, compradas de acordo com os princípios do comércio justo: pagamos antecipadamente as colheitas, a um preço fixado num contrato de três anos”, explicam.

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De lá para cá, a relação entre a Veja/Vert e a Adec se fortaleceu, dando fôlego e incentivo para que outros municípios também investissem na produção do algodão agroecológico. A convite dos empresários franceses, uma comitiva de jornalistas europeus visitou o Esplar no último 23 de maio para uma roda de conversa com o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima, fundador da entidade. Acompanhada por Sébastien Kopp, a comitiva composta por jornalistas, fotógrafos e blogueiros da França, Bélgica e Holanda vieram ao Ceará para conhecer a produção de algodão agroecológico de agricultoras e agricultores familiares de Tauá, organizados pela Adec.

Pedro Jorge fez uma exposição sobre a história do Esplar, desde sua fundação em 1974 aos dias atuais, e destacou a prática da Agroecologia iniciada por volta de 1990, em especial, a produção de algodão agroecológico, há 25 anos produzido em diferentes municípios cearenses. “A Agroecologia não é apenas a aplicação dos conceitos da ecologia para a agricultura. É muito mais do que isso. Essa prática fez com que milhares de pessoas deixassem de usar veneno e agrotóxicos, de queimar o solo para prepara-lo. Agroecologia é vida. Pressupõe também relação justa de comércio”, afirmou Pedro aos jornalistas.

De acordo com Pedro Jorge, o Ceará já foi o segundo maior produtor de algodão do Brasil, ocupando 1.250.000 hectares em 1981. Já em 2017, a plantação de algodão no Estado chegou a apenas 495 hectares, conforme Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por outro lado, na época do auge do algodão, as condições de trabalho impostas pelos fazendeiros eram muito injustas. “A produção estava nas mãos de grandes proprietários e feita por famílias que viviam em suas fazendas. Havia a obrigatoriedade de os agricultores pagarem 50% da produção como renda da terra. Era uma relação injusta de trabalho. Esse sistema tinha suas repercussões sociais, econômicas e políticas”, garantiu o fundador do Esplar.

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Os grandes proprietários de terra tinham muita influência no poder local, conforme Pedro Jorge, e conseguiam eleger prefeitos, vereadores, governadores e até senadores. “Diante dessa realidade, o movimento sindical de trabalhadores rurais começou a questionar esse modelo de divisão da produção. Por que essa família que se dedicava à produção tinha que dividir a metade com o patrão?”, levantou o questionamento durante conversa com a comitiva. “Houve um luta pelo não pagamento dessa renda injusta. Os fazendeiros, então, passaram a proibir a produção do algodão em suas terras”, relatou. Juntando a degradação do solo, a praga do bicudo em 1985 e a proibição dos fazendeiros, a produção de algodão no Ceará enfrentou seu declínio a ponto de quase desaparecer.

Depois de uma pesquisa participativa com agricultores de vários municípios, o Esplar chegou conjuntamente com eles a uma nova proposta de cultivo do algodão em bases ecológicas. “Como resultado do primeiro ano de trabalho, foi elaborada uma proposta de como cultivar o algodão agroecológico. Havia uma massa grande de agricultores que não usavam agrotóxicos, mas, por outro lado, queimavam a terra, não usavam técnicas de conservação do solo. Havia maior interesse entre os agricultores que não usavam agrotóxicos. Os que usavam eram menos abertos às técnicas agroecológicas”, contou Pedro Jorge.

Também contribuíram com o debate a sócia-fundadora Elzira Saraiva, que falou sobre água e qualidade de vida; o coordenador Ronildo Mastroianni, que contou detalhes sobre a primeira visita de François-Ghislain Morillion a Tauá; a coordenadora Andréa Sousa, que comentou as ações do Esplar para a superação das desigualdades de gênero; e o técnico Waldemar Tillesse, que abordou o atual projeto “Consórcios Agroecológicos com o Algodão Mocó: uma alternativa em tempos de mudança climática”, desenvolvido pelo Esplar em parceria com o Instituto C&A. Em 2017, 47 agricultoras e agricultores beneficiários do projeto produziram em seus consórcios 5.146 quilos de algodão em rama.

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Após a roda de conversa, a comitiva de jornalistas seguiu viagem até Tauá para conhecer as instalações da Adec e conversar com as agricultoras e os agricultores. “Em 6 dias, percorri mais de 21312 km, peguei 5 aviões, passei horas e horas em micro-ônibus nas estradas brasileiras, descobri paisagens de tirar o fôlego e, mais importante, descobri os bastidores de @veja uma empresa humana, eco responsável criada por @sebastien_kopp e @fgmorillion em 2004. Seu credo? ‘Se o mundo tem que mudar, não é a economia, mas o viés dos negócios’. E pude ver o trabalho deles no chão: na fábrica fazendo tênis, nos campos de algodão orgânico, e nos depoimentos de seus parceiros no local (ONGs, agricultores e cooperativas)”, relatou em seu Instagram Valerie Tribes, jornalista do Le Chiffon y Grazia.

No último sábado (23), o jornal Le Parisien publicou reportagem sobre a Veja Shoes e o algodão agroecológico cearense. “Desde 2004, mais de 180 toneladas foram adquiridas pela Veja, diretamente dos agricultores. Uma vez colhidas, as preciosas bolas brancas são enviadas não muito longe dali, em uma cooperativa que, usando uma máquina, separa as sementes do algodão. A matéria-prima é então fiada e tecida, antes de ser enviada a Porto Alegre, a mais de 3.000 quilômetros de distância”, relata a reportagem de autoria do jornalista Airy Aubry, que viajou ao Brasil a convite da Veja.

Leia aqui reportagem completa do Le Parisien

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Takashi Ebuchi e Eliza Otsuka, repórteres do jornal japonês The Asahi Shimbun, foram recebidos no Esplar na manhã desta quarta-feira (21/12/2016). Os dois vieram ao Ceará conhecer experiências de economia solidária e entrevistaram o fundador da ONG, o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima, que, há quase três décadas, assessora comunidades no cultivo agroecológico do algodão e no comércio justo.

Ao longo de 2016, Takashi esteve no Reino Unido, Espanha, Alemanha, França, Índia, Cingapura, entre outros países, para reportar alternativas de desenvolvimento solidário. Em dezembro, ele viajou à cidade de Tauá, onde o Esplar, em 1990, começou a disseminar o método dos consórcios agroecológicos e ajudou a estruturar a cadeia produtiva de plantio, beneficiamento e venda do algodão. As reportagens serão publicados em fevereiro de 2017 neste jornal que tem tiragem diária de sete milhões de exemplares, sendo um cinco maiores do Japão.

Na entrevista, Pedro Jorge explicou aos repórteres como a concentração fundiária explorava o trabalho dos agricultores e agricultoras no Brasil, antes da promulgação do Estatuto da Terra, na década de 1960. Os trabalhadores/as rurais eram obrigados/as a entregar metade da colheita ao dono da terra, o que agravava a exploração e a desigualdade no País. Com as lutas sociais, foi aprovado o Estatuto que normatiza o pagamento de 20 por cento da produção como arrendamento pelo uso da propriedade.

O comércio do algodão era feito por intermédio dos atravessadores, pessoas que compravam dos pequenos produtores por um preço muito baixo e revendiam. O trabalho do Esplar com as comunidades rurais os capacitou a beneficiar o algodão. Em 1993, a compra de uma máquina descaroçadeira propiciou aos agricultores de Tauá, pela primeira vez, a autonomia na produção e na venda, pois neste mesmo ano, 0 Esplar mediou a venda do algodão agroecológico da ADEC (Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá) ao Greenpeace.

Em 2003, a  Justa Trama, cooperativa de confecção de roupas, e,  no ano seguinte, a Veja, empresa francesa de sapatos ecológicos, buscam fornecimento de algodão orgânico no Ceará e conseguem, também com a orientação do Esplar, comjornal_japones_algodao_esplar

prar safras anuais da agricultura familiar. As negociações são feitas seguindo parâmetro do comércio justo e valorização o trabalho dos produtores que seguem dos princípios agroecológicos.

Pedro Jorge explicou aos repórteres que, diferente do modelo de negociação convencional, o comércio justo e a economia solidária são fundamentados na  confiança mútua entre o produtor e o comprador. A cada ano, é feita a encomenda das safras de algodão, o preço é acertado pelos próprios agricultores e registrado em contrato. “Há uma tentativa de praticar valores éticos e, com estes exemplos é possível estimular uma melhor qualidade do algodão. É mantida uma relação de proximidade com os agricultores , este é um diferencial importante”, disse.

Sobre a possibilidade de expandir experiências de economia solidária em meio ao modelo capitalista, o fundador do Esplar argumentou que é uma luta desigual, pois “na economia convencional o mais importante é o lucro e a redução de custos e isso causa impactos para o trabalhador”, disse. Há mais de três décadas o Esplar impulsiona o comércio justo do algodão no Ceará  e Pedro Jorge acredita nesta alternativa de desenvolvimento. “Posso constatar que é possível, apesar das dificuldades, temos que continuar acreditando”.

Em 2016, o Esplar inicia, em parceria com o Instituto C&A, o Projeto Consórcios Agroecológicos com algodoeiro Mocó com intuito de ajudar os produtores e produtoras a contornar o agravamento das mudanças climáticas 80 famílias agricultoras terão assistência técnica para o cultivo da desta espécie resistente à estiagem.

Leia mais

O tempo do algodão.  Histórico Esplar 1990 – 2016

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