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Diana e Chimamanda: um paralelo entre histórias de vida e morte de mulheres

Por Cinthia Moreira de Carvalho Kagan

Numa cova rasa. Talhada nas articulações feito caça. Dobrada e enterrada, ao lado do altar do terreiro de umbanda, no quintal da casa que dividia com seu companheiro e assassino, estava Diana. O fedor do seu corpo em decomposição guiou o seu pai a desvendar o segredo de seu desaparecimento naquela noite de domingo, última vez que Diana foi vista com vida.

Seu verdadeiro nome era Rosiane Dantas da Silva, de 27 anos de idade, mas preferia ser chamada de Diana, e assim o faremos ao longo deste texto. Ela tinha dois filhos, o mais velho de seis anos e o mais novo com dois anos de idade. Diana era mulher indígena, da etnia Pitaguary, morava na aldeia de Monguba, mais precisamente numa localidade chamada Provisória. 

Na Provisória Diana viveu por 27 anos, dividindo 12 desses anos com Lucas, pai dos seus filhos e seu assassino.

Depois de uma história de amor e alegria, como nos descrevem as pessoas que com eles conviviam, estes momentos foram substituídos por agressões psicológicas, verbais e físicas. Paulatinamente, Diana, não suportando mais aquela situação, decidiu se separar de seu algoz.

Ele, inconformado, passa a insistir para que a relação seja reatada. Não se conforma em perder "sua mulher".

Diana, por sua vez, estava realmente decidida a por fim ao relacionamento.

E este foi seu decreto de morte, assinado por ela mesma.

Assinou quando percebeu que sua vida podia ter outro rumo.

Assinou quando se sentiu jovem e bonita, se fez bela, aumentou sua autoestima e a estampou com um lindo sorriso nas redes sociais.

Assinou quando se assumiu mulher, que não era metade de ninguém e se sentiu por si só inteira e capaz.

Assinou quando nasceu, pois nasceu mulher.

Aliás, assinou antes mesmo de nascer e foi forçada a crescer e a viver sem ter outra escolha além de uma sociedade onde a mulher é considerada um objeto de posse. Mas quando falo em posse, vou além do pertencimento a um homem, falo de uma posse social, psicológica e coletiva, falo do alimento patriarcal que nutre a sociedade há séculos e se recusa a ser expelido, evacuado dos nossos corpos sociais, da nossas vidas de mulher. 

Drama? Novela? Cinema?

Por que buscaríamos roteiros de extremo mau gosto, com finais trágicos?

Isso é vida real, é a nossa vida de mulher, a mesma vida que à Diana foi ceifada.

Como antropóloga, convivi durante anos e acompanhei diversos relatos de agressão contra mulheres indígenas, relatos que ocorrem de forma cada vez mais frequente..

Participo atualmente de um projeto da União Europeia, que propõe o fortalecimento político-organizativo dos povos indígenas do Ceará, e um de seus objetivos é fortalecer grupos de mulheres  através da Associação de Mulheres Indígenas do Ceará (AMICE). Minha função é refletir com elas sobre questões de interesse das mulheres e informá-las sobre seus direitos, por meio de formações continuadas, onde aprofundamos - conjugo o verbo no plural pois faço isso junto com outra educadora, que me educa a cada dia em que convivemos, Magnolia Said - as temáticas de gênero  e da violência doméstica, em uma perspectiva feminista.

Estas formações acontecem nas aldeias, onde conhecemos o local e  compartilhamos histórias de vida, o que nos tem levado a  perceber o quanto elas ainda são carentes de conhecimento e desconhecem seus direitos.

Nas aldeias, as mulheres indígenas têm uma função primordial na produção alimentar e no sustento das famílias. Entretanto, mesmo tendo um papel de extrema importância para a manutenção do núcleo familiar, elas não gozam desse  protagonismo no espaço público.

Nas assembleias, reuniões, observamos que elas sempre participam de três formas : duas diretamente e uma indiretamente:

De forma direta e em menor escala, como lideranças, participando das pautas e das falas. Ainda de forma direta, mas em maior escala, nos bastidores, na organização, na logística do evento, acomodando pessoas e cozinhando.

De forma indireta, participa a maioria delas, quando abdicam de participar da esfera pública,  para ficar em casa cuidando da casa e dos filhos e viabilizar a participação do companheiro. Algumas delas exercem esse papel de coadjuvante naturalmente, sem sequer questionar sobre uma possível divisão justa do trabalho doméstico e de cuidados, sem ver a necessidade de se colocar nas discussões e nas tomadas de decisões da comunidade e das organizações indígenas.

O maior obstáculo é que, além de já serem poucas nos espaços de participação durante as discussões, a pauta principal destas mulheres continua sendo exclusivamente a demarcação de suas terras. Esta pauta é extremamente compreensível e necessária num país como o Brasil, onde os processos demarcatórios, que por lei deveriam durar no máximo cinco anos, se arrastam por décadas, como é o caso da maioria das aldeias cearenses. Portanto, é justa a preocupação das mulheres, pois é com a demarcação que será garantida a terra e dela depende o futuro de seus filhos e parentes. 

Destarte, a inquietação chega quando observamos que esta é uma pauta tão recorrente e natural que não se cria uma possibilidade de equilíbrio entre a luta pela terra e a luta por seus direitos específicos. Enquanto isso, a violência só aumenta, sem ser relatada publicamente, nem denunciada. Se defendemos o território e não defendemos o corpo das mulheres, não desmontamos as opressões que configuram o capitalismo.

Podemos estabelecer uma relação entre a ausência da luta das mulheres para elas mesmas, por seus direitos, por informação e conscientização e o aumento significativo da violência contra as mulheres nas aldeias do Ceará e do Brasil, mesmo com realidades geopolíticas não sendo exatamente as mesmas?

Na aldeia Pitaguary, composta em média por 3.500 habitantes, somente nos últimos seis meses (entre junho e novembro), fomos  informadas de três casos graves de violência doméstica. Um deles foi o caso da Diana, um feminicídio. Imaginamos então que muita violência nunca é dita,  nunca sai das quatro paredes…

Durante as estadias nas aldeias, nos momentos de formação do projeto, percebemos que as mulheres desconhecem ou desacreditam no sistema de proteção para mulheres vítimas de violência. Alguma delas só reconhecem a violência física, ignorando que psicologica e verbalmente também são agredidas. Isto acontece e se repete sem que o Estado tome conhecimento nem providências, pois as denúncias só acontecem em casos extremos.

Rosa, irmã de Diana, viveu por dez anos uma relação violenta e depois do trigésimo segundo boletim de ocorrência, desistiu da Justiça. Continuou sendo agredida e ameaçada pelo agressor. 

Algumas mulheres vivem uma vida violenta, apanham todo dia ou a cada vez que o marido se embriaga, ou quando viajam,  seja para participar das ações do movimento indígena, seja para estudar. Os "motivos" são diversos, mas elas não se arriscam a denunciar, pois temem que o resultado seja a volta pra casa sem proteção do sistema e com uma recepção cheia de ira e mais violência por parte do agressor.

No Brasil, uma em cada três mulheres indígenas é estuprada ao longo da vida.

De acordo com o artigo "Por que a violência contra as mulheres indígenas é tão difícil de ser combatida no Brasil", publicado no site huffpostbrasil.com, no Mato Grosso do Sul, Estado com a segunda maior população indígena do Brasil, houve um significativo aumento de 495% de violência contra a mulher. Em 2010, o número era de 104 agressões físicas. Em 2014, este número subiu para 619 casos relatados. Em 2016, as denúncias aumentaram cerca de 23,1% em relação a 2015. E estes números não param de subir em outros estados do país.

No artigo citado acima, o Conselho Indigenista Missionário alerta que estes dados sobre a violência carecem de melhor qualificação, pois não permitem uma análise mais aprofundada.

Em março de 2016, ainda segundo o artigo, a relatora especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, também foi clara quando afirmou que é preciso ter uma maior documentação dos problemas enfrentados pelas mulheres indígenas no país. A relatora destacou igualmente outros  casos de violência além da doméstica, advindas de estupros decorrentes das invasões de terra indígena, quando as mulheres se tornam mais vulneráveis e reforçou a importância de documentar estas violências para que tornem-se parte da pauta política, com o intuito de solucioná-las.

Por não serem amparadas pelo sistema de proteção, essas mulheres não denunciam. Uma vez que não denunciam, não fazem parte das estatísticas. Não existindo estatística, não existiu a violência, não existindo violência, o Estado fica isento de tomar qualquer providência. Esta é a realidade das mulheres indígenas.

Em uma das formações sobre violência doméstica e familiar e o sistema de proteção, algumas mulheres relataram que por decisão própria e outras por falta de instrução,  se encontram num beco sem saída, sem ter para onde ir ,por este motivo continuam sendo agredidas dentro de casa. Elas afirmam que a LEI 11.340/2016, mais conhecida como Lei Maria da Penha, foi pensada para um contexto urbano, que não corresponde à realidade vivida por elas.

As mulheres indígenas argumentam que, para nós da cidade, quando temos um problema podemos ir para outro bairro, outra cidade, para casa de amigos ou parentes. Já para elas, a situação é bem precária, uma vez que toda a família faz parte da mesma comunidade, morando uns vizinhos aos outros e por muitas vezes não querem acolhê-las, para não se meter nas brigas e  não ter a inimizade do agressor.

Nessa mesma atividade, numa discussão coletiva, chegou-se a conclusão de que se elas não confiavam neste sistema de proteção, deveriam executar um plano "B". Restou decidido então, que as mulheres fariam um intercâmbio entre aldeias. Concretamente, o intercâmbio procederá  desta forma: se uma mulher Tapeba for agredida, ela sai da sua aldeia e vai se refugiar em outra aldeia, onde será acolhida por uma mulher indígena, que fará parte de uma rede solidária, criada e escolhida por elas mesmas, para receber as parentes em situação de violência doméstica e as ajudarão a tomar as medidas cabíveis.

Eu acho que, se Diana tivesse tido oportunidade de participar desta conversa, ela não estaria morta. Fico imaginando os frutos que a resolução tomada na criação de um intercâmbio de mulheres irão salvar outras Dianas. Espero sinceramente que sim. 

Penso como Diana se identificaria e se sentiria apoiada com esse diálogo. Percebo então que o maior problema é a falta de informação e de diálogos entre as mulheres, sobre assuntos relacionados às suas vidas. Imagino então, numa espécie de  "De volta para o futuro", uma conversa entre Diana e ninguém menos que Chimamanda Ngozi Adichie. 

No meu filme, Diana teria tido outras saídas, um futuro mais consciente, menos violento e um final feliz, ao lado dos seus dois filhos (não posso nem pensar nisso, sendo mãe de dois também):

Diana:  "Mas porque falar de gênero? Feminismo? Vivemos todos juntos, pra quê dividir? Ja existem os direitos humanos…"

Chimamanda: "Não é fácil conversar sobre a questão de gênero. As pessoas se sentem desconfortáveis e as vezes até irritadas. Nem homens nem mulheres gostam de falar sobre o assunto, contornam rapidamente o problema. Porque a ideia de mudar o status quo é sempre penosa. (…)  O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral - mas escolher uma expressão vaga como direitos humanos é negar a especificidade e a particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para este problema esteja no reconhecimento deste fato."

Diana: "Mas se eu chegar em casa com esse papo de feminismo, meu companheiro vai se revoltar!"

Chimamanda: "Alguns homens se sentem ameaçados pela ideia do feminismo. Acredito que essa ameaça tenha origem na insegurança que eles sentem. Como foram criados de um determinado modo, quando não estiverem" naturalmente » dominando, como homens, a situação, sentirão a auto-estima diminuída. Outros talvez enfrentem a palavra' feminismo'da seguinte maneira:" Tudo bem, isso é interessante, mas não é meu modo de pensar. Aliás, eu nem sequer penso na questão de gênero."

Diana: "O meu é índio, caçador, bruto, não vai nem querer entender, não vai nem querer pensar nisso!"

Chimamanda: "Talvez nem pense mesmo. E isso é parte do problema: os homens não pensam na questão de gênero, nem notam que ela existe."

Diana: "Ele vai é se irritar se eu falar nisso. Pra ele homem é homem, é forte, é guerreiro e sempre foi, desde o tempo das cavernas. Já a mulher… é frágil, o lugar dela é dentro de casa, cuidando dos filhos, do marido e da cozinha. Pra ele essas coisas não mudam, tudo é uma questão do mais forte e do mais fraco."

Chimamanda: "Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há mil anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chance ele tinha de liderar. E os homens são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero deixam a desejar."

Diana: "É… mas homem sempre se incomoda em ficar por baixo e arranja uma forma de provar que é superior nas questões de gênero… mesmo que pra isso ele tenha que apelar pros macacos."

Chimamanda: "Como a questão de gênero incomoda, as pessoas recorrem a vários argumentos para cortar a conversa. Algumas lançam mão da biologia evolutiva dos macacos, lembrando como as fêmeas por exemplo se curvam perante os machos. Mas a questão é a seguinte: nós não somos macacos. Macacos vivem em árvores e comem minhocas. Nós, não."

Diana: "Mas isso é cultural. Nasci e me criei vendo minha mãe em casa servindo meu pai e minha mãe já tomava como exemplo a minha avó, que fazia a mesma coisa. Acho que isso é cultural, não poderemos mudar…"

Chimamanda: "Tem gente que diz que a mulher é subordinada ao homem porque isso faz parte da nossa cultura. Mas a cultura está sempre em transformação (…) Para que serve a cultura? A cultura funciona, afinal de contas, para preservar e dar continuidade a um povo (…) A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura."

Diana: "Se é assim, você acredita mesmo que uma mudança é possível, que existe uma solução para este problema de desigualdade de gênero?"

Chimamanda: "Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar."

Diana: "Mas você não acha tudo isso um pouco utópico? Falar é fácil…"

Chimamanda: "Falar é fácil, eu sei, mas as mulheres só precisam aprender a dizer NÃO a tudo isso. A realidade, porém, é mais difícil, mais complexa. Somos seres sociais, afinal das contas, internalizamos as ideias através da socialização."

Diana: "Pois é Chimamanda, a vida às vezes é sustentada por um fio… neste caso essa mudança que você acredita, poderá melhorar e mudar o destino de muitas mulheres… Adiante, entro com você nesta luta, para que sejamos livres e felizes!"

Chimamanda: "O problema da questão de gênero é que ele prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero."

Diana: "Doravante, quebraremos os paradigmas e as expectativas, para sermos quem realmente somos!"

Minhas fontes bibliográficas, para produção deste texto, foram as mulheres indígenas guerreiras que ousam compartilhar as suas histórias, Diana, in memoriam, e Chimamanda Ngozi Adiche, com seu pequeno, porém, intenso livro" Sejamos Todos Feministas", de 2005 (Editora Cia das Letras)

Gostaria de esclarecer que escrevi este texto sem nenhuma ambição nem rigor científico, pois, mesmo sem querer ofender os acadêmicos, acredito que por muitas vezes o conhecimento da academia restringe que a informação chegue de forma acessível aos principais interessados, neste caso específico, as mulheres vítimas de violência doméstica, que morrem todos os dias, sem ascender às informações básicas que tocam à sua proteção e aos seus direitos. Espero sinceramente que ele sirva e toque algumas mulheres indígenas e não indígenas que se identificarem com esse jeito de pensar o mundo, podendo mudar, nem que seja de forma micro, as suas realidades.

E foi assim, de forma inusitada e sincera que, numa noite de insônia e TPM, esse texto me saiu, assim como o meu sangue, das minhas entranhas.

 

Cinthia Moreira de Carvalho Kagan

13 de Dezembro de 2017.

Arte (Freepik)

 

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