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Elas e as Janelas

Elzira Saraiva

As janelas do sertão e suas ocupantes mais frequentes, as mulheres, sempre me atraíram desde a infância. Quando ia para a casa de minha avó, me encantava ficar olhando minha avó e minhas tias tecendo renda com bilros com suas almofadas estrategicamente colocadas junto à janelas da casa de chão batido onde a família de minha mãe morava. 

De vez em quando elas paravam e ficavam com o olhar perdido no horizonte, que no caso delas era a estrada. Qualquer viajante que passava na estrada era motivo para uma conversa. Às vezes eram pessoas doentes que passavam em carroças em busca de socorro médico na cidade, outras vezes, eram meus tios-avôs levando a feira montados à cavalo ou em carroças. Tinha também o serviço dos “homens” nas máquinas de cortar a palha da carnaúba para se extrair a cera.

A casa de minha avó ficava no vale do Banabuiú, município de Morada Nova, no Ceará. As horas da tarde, que era o tempo de se tecer as rendas, se passavam lentas para mim, que era acostumada com o ritmo da cidade. Para elas o tempo era marcado pelo relógio de pêndulo pendurado na sala e também pelo que elas viam da janela. A chegada das ovelhas que meu avô tangia para o curral era o sinal que o tempo para as rendas havia terminado e era hora de preparar o jantar. 

Quando comecei a viajar para fazer os termos de recebimento das cisternas do P1MC me deparei com mulheres curiosas na janela. Elas olhavam para mim com um olhar interrogativo. Esse olhar me fez viajar no tempo e trazer para o momento de fazer as fotos para os termos algumas cenas de minha infância, que estavam guardadas em algum canto do meu cérebro ou talvez do coração. 

Aproximei-me delas e comecei a conversar, perguntei se podia tirar fotos delas na janela. Todas invariavelmente disseram sim. Algumas imediatamente se empertigaram e assumiram uma postura ereta com as mãos cruzadas, o que resultava numa pose de Monalisa. Assim fui fazendo as fotos. 

De volta para o Esplar, mostrava as fotos para a turma do escritório que sempre gostava do que via. Resolvi então continuar a fotografar as mulheres do semiárido em seu primeiro espaço público, a janela. E assim fui coletando uma diversidade de rostos enquadrados em uma diversidade de janelas e que tão bem expressam a diversidade do semiárido brasileiro. Temos cara de índias, mulatas, brancas, somos novas, temos idade avançada, somos às vezes alegres, às vezes tristes, pensativas, sonhadoras, modernas e até pós-modernas, gostamos de conversar e todas vivemos no semiárido brasileiro. Algumas de nós já atravessamos portas em busca do espaço público, outras ainda estamos usando as janelas como o primeiro espaço público que conseguimos conquistar na sociedade patriarcal.

Exposição "Elas e as Janelas" é realizada nesta sexta

Eu Olhando, Elas e a Janela (Francisco de Castro)

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