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FMI - Estupro de países, estupro de imaginários

No dia 18 de maio de 2011, Dominique Strauss-Kahn pediu demissão do seu cargo de diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) depois de ter sido detido no dia 14 de maio por tentativa de estupro.Os periódicos apresentam o caso como sendo de ¨abuso sexual¨, ¨agressão sexual¨, em que ele teria ¨molestado sexualmente uma camareira e hotel¨, ¨violentado uma camareira¨. Vamos dar o nome certo ao que ele praticou: “atentado violento ao pudor”, que não se consumou em estupro, por circunstâncias alheias à sua vontade. Para o crime cometido por Strauss-Kahn, no Brasil, a pena varia entre 6 a 10 anos de prisão.


Esse acontecimento levantou várias polêmicas, incluindo questionamentos em torno da possibilidade do pré-candidato, liderando as pesquisas do Partido Socialista à presidência da França nas eleições de 2012, ter sido vítima de uma armação política. Não é a primeira vez que um rei das finanças é envolvido em um caso como esse. Aliás, no dia 31 de maio, um banqueiro egípcio foi preso por ¨abusar sexualmente¨ de uma faxineira em um hotel em Nova Iorque. Atentado violento ao pudor e estupro são crimes que exigem todo o rigor da Lei, posto que obedecem a uma situação psicológica embutida no “caminho do crime”, deixando marcas irreparáveis. Mais ainda, se consideramos que por muitos anos mulheres do mundo inteiro têm sido obrigadas a suportar caladas tal violência, em função da previsão de impunidade. Para além desse fato, é preciso considerar duas outras questões.

Primeiro, Strauss-Kahn não tentou estuprar somente a camareira ou outras mulheres. Como presidente do FMI, ele, assim como todos os outros presidentes do Fundo, diretores executivos e funcionários, são responsáveis pelo estupro de vários países - e nunca foram punidos por todos esses crimes. A modernidade nos trouxe, além de tantos outros problemas, o esquecimento da história. Sujeitos condicionados pela e dependentes da presentificação, perdemos a memória e, assim, os determinantes do presente, o sentido do presente - o que, consequentemente, afeta nossa capacidade de pensar, desenvolver e manter alternativas. Não existe presente nem futuro sem história. Perdemos também o bom vício de buscar na teoria as explicações para enxergarmos determinadas realidades. Então, vamos rapidamente lembrar, falar das políticas, das crises, dos protestos...

Estamos vivenciando um avanço ultraconservador nos EUA e Europa, o que está a indicar um desenvolvimento a qualquer preço, com sérias implicações socioambientais já confirmadas. Nos EUA, mobilizações clamam por deus e pela pátria, reforçadas por um presidente que curiosamente fortalece a velha concepção racista e anti-étnica dos tempos da colonização, de que a verdadeira América do Norte deve ser branca, protestante e anglo-saxônica. Nessa perspectiva, o império tem dado respostas cada vez mais violentas à crise: acordos bilaterais que se aproveitam de um estado de baixa soberania dos países, apoio a invasões militares e a governos de perfil fascista.

A possibilidade de saídas para a crise mundial por outros caminhos, a partir de uma reviravolta no pensamento estático, que resgataria as pessoas do aprisionamento voluntário a que estão submetidas, não tem sido sequer considerada.

Os protestos de massa não são nada mais do que uma tentativa desesperada de romper os fios invisíveis da dominação, aonde quer que eles estejam. Aquelas pessoas que estão indo às ruas, o fazem movidas por uma desconfiança generalizada em relação aos políticos, aos tradicionais movimentos sociais e aos chamados governantes de esquerda. Na Espanha, clamam por Democracia Real. A “Representativa” não basta para promover as necessárias transformações no modelo e nas sociedade, pois que o permitido pela via da participação não permite produzir mudanças em absolutamente nada. Porém, essas mobilizações ainda se configuram em fagulhas dispersas, por isso precisamos conquistar as pessoas pelo gesto, atitude e pela palavra. Estamos diante de uma sociedade do capital em que o consumo se tornou inumano e - como Sidarta, o fastio com a riqueza exagerada - produz estranhos e hostis para com o mundo e as pessoas, pois nada é mais bastante. É aí que reside o perigo. No que estamos nos transformando, para onde vamos? “Deixa a vida me levar, vida leva eu” não pode se instalar no imaginário, como senhora das utopias.

Segundo, a saída do Strauss-Kahn da presidência do Fundo iniciou – novamente – uma grande corrida para a sua substituição. Correm os que exigem que o presidente seja de um país do Sul. E aí perguntamos: é essa a questão que nos interessa? Será que tendo um presidente do Sul alguma coisa vai mudar? Isso seria o mesmo que reconhecer que o FMI tem motivo para continuar existindo ou que pode ser reformado, melhorado. NÃO, cara pálida, isso é impossível. O que é preciso mais acontecer para se perceber isso? Não bastam os anos de violência das suas políticas, dos milhares e milhares de “FORA FMI” nos países do Sul e agora, sofrendo as consequências das suas próprias políticas, o Norte também diz “FORA FMI”?

Hoje, a crise européia coloca Espanha, Grécia e tantos outros na mesma situação em que têm estado, ao longo de décadas, os países do Sul. Nossos antigos algozes estão vivendo à beira de uma submissão forçada aos ditames do FMI ,que se dispõe a aplicar receituário semelhante àquele que afundou ainda mais os países do Sul. O feitiço volta-se contra o feiticeiro. A novidade é que os tempos de hoje não são mais os tempos da “coesão social” alardeada pela União Européia nos últimos 10 anos. Ou seja, os efeitos da crise foram penetrando feito vermes nas estruturas sociais e nas institucionalidades de um modo tal que instalou-se uma desconfiança generalizada na idéia de que é possível viver sem que as contradições do sistema aflorem. É importante esclarecer que não são os formuladores de tais receitas os que estão sofrendo os efeitos de remédios com data de validade vencida. Não são eles que estão nas ruas da Espanha, Grécia... Agora tanto no Sul como no Norte os povos estão dizendo “FORA FMI”.

Na verdade, de um modo geral, ainda se vive no Sul sob o manto da “dominação sem sujeito” implantada pelos governos da esquerda populista. Estes exigem das populações, sacrifícios irreparáveis que poderão tornar-se irresgatáveis pelas próximas gerações. É emblemático, por exemplo, a comemoração da volta de Zelaya como uma vitória do povo hondurenho. Trocando seis por meia dúzia? Talvez na Europa, por vários motivos já se tenha mais claro quem são os carrascos da dominação. Diz-se que a velha política está com seus dias contados.

E a nova política, por onde começa? Por um presidente do Sul para dirigir o FMI? É isso que se quer? O curioso é que já era sabido que quem paga a crise é a classe trabalhadora; que os banqueiros e grandes empresários seguem acumulando benefícios; que os dirigentes políticos são incapazes de tomar medidas contra as elites e que as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs) não foram constituídas para promover o desenvolvimento nem para socorrer países com problemas de balança de pagamentos. Mas nós, desassossegadas e desassossegados existimos e, desde o Sul, dizemos que queremos mesmo é que o Fundo deixe de existir; que finalmente feche as suas portas; que seja instado a implementar reparações pelas violências causadas por suas políticas, pelos estupros de vários países; e que os responsáveis sejam julgados e condenados.

É claro que hoje em dia é cada vez mais difícil identificar indivíduos responsáveis por esses crimes, já que a racionalidade econômica do capitalismo é transferida das pessoas reais para o âmbito das instituições que juridicamente assumem status de pessoa cujo sentido de existência é o lucro. Trazem um traço de impessoalidade às ações. As pessoas reais que dirigem tais empresas são colocadas nestas posições para seguir as regras do jogo. No entanto, é possível sim apontar responsáveis e aqui mencionaremos apenas alguns: Camille Gutt, da Bélgica; Iva Rooth e Per Jacobsson, da Suécia; Pierre-Paul Schweitzer, Jacques de Larosieree e Michel Camdessus, da França;, Johannes Witteveen, dos Países Baixos; Horst Kohler ,da Alemanha; Rodrigo Rato, da Espanha; e, claro, Dominique Strauss-Kahn. Estes são os estupradores de países, presidentes do Fundo até agora, mas também devem ser considerados aqui todos os diretores executivos, governantes dos EUA e Europa, países que nas IFIs sempre mandaram... Bem, a lista é interminável.

Embora discordando da perigosa estratégia de exigir que um representante de um país do Sul passe a legitimar uma instituição falida, é importante abordar a questão em torno do papel dos países do Sul com alguma chance de assumir o Fundo. Agora, a corrida, a ser decidida no final do mês de junho, está reduzida a uma única possibilidade: um ¨mexicano¨. Mas há alguns dias se falava também de um brasileiro. Lembrando que os dirigentes destas instituições são escolhidos a dedo para seguir a lógica instalada, é fundamental analisar o perfil do ¨candidato¨ brasileiro. Armínio Fraga foi cotado como um dos possíveis sucessores do ex-diretor-gerente do FMI. Ex-presidente do Banco Central, trabalhou na empresa do megainvestidor George Soros, além de ter a sua própria companhia de investimentos, Gávea, vendida por ele ao JP Morgan. Que currículo para o FMI não? E ainda tem relações com fundos de cobertura (hedge funds). E o que são estes fundos de cobertura? Para mencionar só alguns probleminhas com tais fundos, com os quais estaria relacionado um presidente do FMI do Sul, podemos citar: atividades não reguladas por qualquer agência; suas técnicas de investimento são agressivas, inclusive proibidas no caso dos outros fundos; cobram altíssimas comissões, concentrando a participação aos donos de capital, e por aí vai. E o mexicano Agustín Carstens? O que podemos esperar de um mexicano próximo aos EUA e ligado à Escola de Chicago? A mesma que formou os “Chicago Boys” e os espalhou pelas universidades do Sul para implantarem a ideologia neoliberal.

Mas vejam, o governo brasileiro, que ainda não se posicionou oficialmente, parece apoiar a candidata francesa, ministra da economia, Christine. De acordo com Lagarde, ¨O FMI não pertence a ninguém¨. Bem, está certo que a maioria da população não é dona do FMI mas, com os seus mais de 60 anos de história, uma coisa aprendemos: o FMI é do capital! Então, o que o Brasil ganha com isso? É um toma-lá, dá-cà – em troca do seu apoio. O Brasil quer mais cargos estratégicos, incluindo uma diretoria estratégica. E o que um bom aluno como o Estado brasileiro vai fazer com estes cargos?

Quando vamos perceber que o capitalismo se sustenta, se expande, se legitima e se fortalece a partir da apropriação e transformação da crítica? Quando vamos aprender que fingem estar escutando e se reformando enquanto planejam e implementam a sua expansão? A sociedade grita: mais transparência e as IFIs ¨publicam¨ suas informações. A sociedade grita mais participação e as IFIs escolhem um grupinho de elite da sociedade civil do qual eles mais gostam para sentar à mesa e participar dos seus coquetéis, sem mudar, é claro, a sua lógica de funcionamento. Agora, a sociedade grita mais poder para os países do Sul, e as IFIs dão uma esmola em termos de poder: um cargo aqui e outro ali para os países escolhidos por eles, os bons alunos que hoje são os que, de fato, sustentam o Norte. Então, é preciso questionar; o que de fato muda? Não podemos seguir com essa lógica exigindo apenas uma troca de nacionalidade do presidente do FMI. Vamos virar esse jogo! Podemos acreditar; não que podemos eleger um presidente do FMI do Sul, mas que podemos romper com as estruturas de poder que mantém essa instituição, o Banco Mundial e tantas outras. Sem estrutura, elas desaparecem. Vamos repensar a natureza das nossas lutas, para não assistirmos à morte da política, cada vez mais real na reduzida possibilidade de espaços de discussão coletiva e sob relações intermediadas pela via eletrônica. Superamos a lógica ou a lógica nos supera, pois com ela não é possível compatibilizar a satisfação humana e a felicidade.

Poderíamos dizer que a Europa fique com o FMI, com a sua presidência e suas políticas, mas isso não seria justo com os povos do Norte que estão há meses fazendo o que os povos do Sul há anos fazem. Estão nas ruas gritando: não à mais transparência, à participação, nem a um presidente do Sul. E sim “FORA FMI” e tudo que esta instituição representa! Vamos deixar de formular soluções para problemas definidos por outros. Vamos redefinir os problemas, falar o que nunca é dito. Vamos resgatar nossos imaginários e demandar mais. Utopia? Como disse um dos poucos pensadores que ainda tem a coragem de falar a verdade, Slavoj Zizek, utópico é quem acredita que a humanidade pode seguir com o capitalismo. Por que conseguimos acreditar em tantas loucuras que nos são enviadas goela abaixo, mas não conseguimos pensar em um mundo sem o FMI, sem o Banco Mundial e sem o capitalismo?

* Fabrina Furtado é socioeconomista e doutoranda do IPPUR (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro)
* Magnólia Said é advogada, presidente do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria e membro da coordenação nacional da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais.

Fortaleza, 20 de junho de 2011
Magnolia de Azevedo Said e Fabrina Furdado

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