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Sorria! Em nome de uma cidade Inteligente e Segura, você está sendo Monitorado!

Segunda, 02 Setembro 2019 14:26

“Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina.....”

O jornal Folha de São Paulo, do dia 30 de agosto deste ano, traz matéria, segundo aquele periódico, sobre a “guerra fria tecnológica entre EUA e China”, com ênfase no que chamo de “Soldados do Nordeste”, nossos governadores.
Para além do Nordeste, trago em primeiro lugar, uma reflexão sobre a relação Brasil-China. Nos últimos anos, houve um aumento da instalação de empresas chinesas no Brasil, com investimentos em setores estratégicos, como mineração e energia. Todo esse investimento converge para o que se configura no maior projeto daquele governo de acesso a mercados – a nova Rota da Seda, que se propõe a interligar China, Ásia Central, Ásia Ocidental e partes do Sul da Ásia, integrando com a Europa. Pretende se constituir na maior Plataforma de cooperação econômica do mundo, que incluirá: coordenação de políticas, colaboração comercial, financeira, cooperação tecnológica, social e cultural. A Rota deverá atravessar 70 países da Ásia, África, Europa e América Latina.

É aí onde entram os estados do Nordeste, um mercado vantajoso para a oferta de projetos de infraestrutura e acesso a recursos naturais. Em tempos de crise e de desgoverno, então, a relação bilateral com estados brasileiros ganha destaque na geopolítica chinesa. Os nove estados que compõem a região já contam com investimentos chineses relacionados à terra, água, e energia (gás, eólica e solar fotovoltaica). Estão também viabilizados convênios nas áreas de educação, através do Instituto Confúcio (organização educacional pública, vinculada ao Ministério da Educação Chinês), que é voltado para o ramo de negócios e na área de saúde. Agora, empresas chinesas de tecnologia estão negociando com o Consórcio Nordeste (criado pelos governadores da região no inicio do ano, para se fortalecerem na relação com o governo federal), serviços e produtos. Trata-se de instalar, através do instrumento das PPPs, milhares de quilômetros de rede de fibra ótica e conectar os estados.

No pacote dessa forte relação político-comercial estão: sistemas de monitoramento para segurança pública – monitorar pessoas – com instalação de câmeras que fazem reconhecimento facial, detectando a expressão da pessoa, ou seja, se está triste, alegre, com raiva... além do tipo e cor de roupa e a idade aparente. É a peça que faltava – tecnologia ultra-avançada – na consolidação de uma parceria para a viabilização do que esses governadores estão chamando “cidades inteligentes e seguras”, o novo jargão da inovação tecnologia. Parece-me que essas tais cidades inteligentes e seguras vão demandar um padrão étnico-racial e de classe, para a garantia da tranquilidade e felicidade de seus habitantes. A inquietação que dá é de que essa farsa de resolução de um problema social pela via da tecnologia venha a produzir milhares de personagens do Kafka (O Processo), que morrerão sem saber o real motivo de estarem sendo perseguidas e pressionadas cotidianamente. As câmaras estarão instaladas em Aeroportos, Rodoviárias, Metrôs e em outros equipamentos públicos e privados por onde as pessoas circulam. Mas não é só no Nordeste que isso acontece. São Paulo, por exemplo, já recebeu mil câmeras em 2017 da fabricante chinesa Dahua. É difícil não relacionar essa perspectiva também com o livro 1984, de George Orwell – televisores monitorando e controlando a população – sob o império da obediência.

Analistas preveem que, até 2050, a China será a maior potência econômica do mundo. Se juntarmos essa previsão com a fala do atual mandatário Chinês, é de causar preocupação. Segundo ele, quando a China estiver no centro do palco, vai oferecer ao mundo, a sabedoria chinesa e a abordagem chinesa para ajudar a resolver os problemas que a humanidade enfrenta. Acontece que a história política e social da China não é exemplo a ser seguido e ninguém sabe a que sabedoria ele se refere nem em que campos essa abordagem chinesa não explicitada vai interferir. Desgraçadamente, a sedução de investimentos em tecnologias de última geração, tenderá naturalmente a influenciar nos rumos das políticas públicas e do desenvolvimento de um modo geral, como sempre fizeram o Banco Mundial e o Banco Interamericano, a partir de seus empréstimos e da assistência técnico-política ao Brasil.

Chamo a atenção dos movimentos de mulheres para os significados dessa abertura política dos governos do Nordeste àquele país. A China possui altos índices de desigualdade de gênero, além de diferentes formas e graus de violação dos direitos humanos, em especial no que se refere a direitos trabalhistas. Possui uma cultura profundamente machista, onde a maioria de sua população acredita que lugar de homem é na rua e lugar de mulher é em casa; onde as mulheres não podem ultrapassar os homens na carreira profissional. Existem inúmeras restrições e desigualdades em relação ao casamento; são praticados diversos crimes contra mulheres que estão na fronteira com Mianmar; dentre eles, a venda para famílias chinesas, que pela via do estupro, obrigam essas mulheres traficadas a engravidar, sem quaisquer consequências de ordem judicial. Daí, todo o modelo de desenvolvimento chinês é pensado e organizado nessa perspectiva, ou seja, de que mulher não tem direito a ter direitos. Ademais, as organizações da sociedade civil são extremamente vigiadas em relação à fala política, ao ativismo, tanto é que a participação das chinesas nas cúpulas dos BRICS não ocorreu.

Com a Rota da Seda, outros impactos se produzirão sobre a vida das mulheres, por exemplo, no que se refere à produção familiar em bases agroecológicas, dada a escassez maior de terras para o plantio, uma vez que a produção para exportação vai exigir celeridade e seletividade. O poder de decisão das mulheres sobre o que vai ser produzido fica mais longe ainda. Consequentemente, impacta no comércio que as mulheres praticam sem se afastar das atividades reprodutivas, como a venda de doces, ovos, hortaliças, dentre outros. Vai também provocar mais horas de trabalho para quem é assalariado e, somando-se às precárias condições de trabalho, o resultado para as mulheres será mais adoecimento e tristeza. Tudo isso resultará em um empobrecimento maior das mulheres.

De um modo geral, já que vivemos em uma sociedade de mercado sendo, portanto, isso que interessa, o avanço Chinês terá impactos até na economia local no que se refere às mulheres. Por exemplo: a produção de alimentos (doces, mel, tapioca, queijo) e de roupas (de vestir e da casa). Estas ficarão sem tempo de movimentar esse mercado do qual têm o domínio, porque as atividades de cuidado e de manutenção da vida certamente serão ampliadas (buscar água, cuidar dos doentes, dos idosos...).

Para finalizar, só espero que nosso livre pensar não se transforme em “uma abstração sem sentido”, como também previu Orwell.

Fortaleza, 31 de agosto de 2019

Magnólia Said- Educadora Feminista, técnica do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria.