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Chile - A produção de uma farsa

Quarta, 30 Outubro 2019 17:20

chile suhidalgo editada

 Foto: Susana Hidalgo

 

Por Magnólia Said

Até a pouco tempo, a propaganda Oficial divulgava que o Chile era o “Oásis da América Latina”. Um lugar tranquilo, com desenvolvimento e abundância. Tudo mentira! Esse Oásis foi preparado apenas para as elites do país e investidores. Acontece que o que estava represado se rompeu.

Nos últimos dias, as vozes de milhares de pessoas, em especial estudantes, nas principais ruas de Santiago, estão a dizer que basta de desigualdade e opressão. O legado de 20 anos de ditadura já atormentou por demais uma população que reconhece que as mudanças sociais necessárias a uma vida digna passam por reformas na estrutura de poder, a começar pelo rechaço a uma Constituição egressa do período Pinochet. A juventude, consciente de que nada tinha mais a perder, moveu-se e foi às ruas para o enfrentamento e resistência à violência das forças policiais. A geração mais nova, sem expectativas de futuro, entregou-se de peito aberto na contestação ao sistema.

Diferentemente de como foi tratada a ditadura no Brasil, a memória desses anos no Chile é passada para as novas gerações. Apesar do mérito de conscientizar para que não esqueçam tudo o que significou aquele período e, portanto, não desejando a sua volta, a juventude também acaba absorvendo as inseguranças e tristezas das vítimas daquele período. Daí, o medo e a revolta, como impulsionadores de um enfrentamento incomum por parte desse setor, se comparado a outros países da América Latina. Mas esse levante não é novidade para a juventude. Em 2006, mais de 600 mil estudantes secundaristas, no maior protesto da história do Chile – a Revolução dos Pinguins –, foram às ruas para exigir mudanças na educação.

Depois de Allende, o Chile tornou-se o laboratório do neoliberalismo no mundo. Durante todo o período da ditadura, os Chicago boys1 se sucederam em cargos ministeriais e nas Universidades, liderando a tomada de medidas radicais de abertura do mercado, flexibilização de leis trabalhistas e privatizações, alcançando setores até então intocáveis como saúde, educação e a exploração do cobre, que saiu das mãos do Estado para o setor privado.

A educação teve a gratuidade abolida também durante a ditadura. Mesmo nas Universidades Públicas, hoje a maioria dos estudantes paga mensalidades de alto custo e as taxas cobradas são as mais altas do mundo, depois dos EUA. Esse “Laboratório Econômico” inspirou os formuladores de políticas (Banco Mundial e FMI) a oferecer/impor a mesma receita para os outros países da região que solicitavam empréstimos.

Depois de 75 anos dedicados a trazer riqueza e prosperidade ao sistema financeiro através de seus modelos de governança, FMI e Banco Mundial conseguiram que fossem produzidos em América Latina, em especial, incentivando ditaduras, mecanismos de subalternidade e opressões difíceis de serem superados, a exemplo do que ocorre com os indígenas Mapuches.

Os Mapuches, povo indígena que vive entre o Chile e a Argentina, cuja população alcança entre 710.000 a 1 milhão de pessoas, resistem a invasões em seus territórios, desde o séc.17. Hoje, mais da metade daquela população vive em áreas urbanas, mas mantendo os vínculos com suas comunidades de origem. Assim como os indígenas brasileiros, os Mapuches lutam pela recuperação de seu território ancestral e por mudanças constitucionais que lhes garantam direitos e reconhecimento a suas especificidades culturais. Vivem nas cidades em situação de muita miséria e sofrendo em suas aldeias a ação de empresas estatais e privadas, além da forte repressão policial por parte de um grupo especial da polícia chilena, treinado para conter as ações de resistência daqueles povos. Junto com o assassinato de um jovem ativista Mapuche no final de 2018 pela polícia, se somam inúmeros episódios de brutalidade policial e uso excessivo da força contra eles.

O Chile veio a se tornar referência para o modelo de capitalização da Previdência implantado em 1981, durante a ditadura, tendo sido esse sistema, segundo o atual Ministro da Economia do Brasil, quem ajudou o Chile a se tornar “a Suiça latinoamericana e democratizar o acesso à riqueza”. Nos anos de 1990, outros países latinoamericanos (Argentina, Bolívia, Colômbia, México e Peru) adotaram reformas previdenciárias semelhantes à chilena, sob orientação das Instituições Financeiras Internacionais, em especial o Banco Mundial. Mas por que será que estou escrevendo sobre o Chile? Será que não bastam as imagens vindas de lá? Temo que não.

Escrevo em primeiro lugar, para dizer a quem não conhece, que na Suíça todos os indicadores de bem estar da população estão acima da média prevista pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento - OCDE: trabalho, saúde, educação, transporte....Segundo, para dizer que me chama atenção a similitude da política econômica chilena com a política econômica que vem sendo efetivada no Brasil.

Para termos uma dimensão de como está a “Suiça Chilena”, um dos 15 países mais desiguais do mundo:

- A renda per capita do Chile é 60% maior que a do Brasil, porém 57% da riqueza fica com 5% da população. Mesmo assim, o Presidente vai dar 800 milhões de dólares de novos benefícios fiscais a esses 5% da população.

- O acesso à água está nas mãos de empresas privadas.

- É o país com maior incidência de depressão no mundo (atinge 17,5% da população – dados da OMS/2018) e o 2º no ranking de suicídios de crianças e adolescentes, ficando atrás somente da Coréia do Sul. Segundo a OMS esses dados são resultado da falta de investimentos em políticas sociais, em saúde mental e das condições de pobreza da população.

- Pesquisa da Universidade chilena de San Sebastián (2015) afirma que 10,9 milhões de pessoas estão endividadas em um país cuja população total chega a 18.791 milhões de habitantes, o que se configura bastante alarmante.

- As taxas de suicídio entre pessoas idosas são elevadíssimas.

- A capitalização da previdência resultou que a aposentadoria atual de 91% da população é inferior a R$ 760,00. Segundo Andras Uthoff, Consultor do Instituto da Igualdade e Professor de Economia da Universidade do Chile, 80% das aposentadorias pagas naquele país estão abaixo do salário mínimo e 44% estão abaixo da linha da pobreza, sendo rentável somente para as Administradoras de Fundos de Pensão.

- O número de feminicídios cresce a cada ano. No dia Internacional da Mulher, 100 mil mulheres foram às ruas para denunciar a violência contra a mulher. O Chile, historicamente, é um país machista e conservador. Os índices de agressão física e psicológica nos relacionamentos são bastante elevados. Em 2016 foram registradas 93.545 denúncias de violência familiar. Em 2017 foram registrados 43 feminicídios. A legislação existente é insuficiente no que se refere à tipificação do feminicídio.

- A participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor da América latina.

- Em 2013, a dívida Externa era de U$ 130.965 bilhões, com crescente aumento. Em 2015 cresceu 17,5% e em agosto desse ano, atingiu U$ 197,6 bilhões e a tendência é continuar crescendo.

Diante desse contexto, em especial, após a aprovação da Reforma da Previdência no Brasil, não há como não temer a volta do que se passou no Nordeste, em especial no Ceará, nos anos de 1915 – período da pior seca que se tem notícia, onde uma massa dos chamados retirantes migrou para várias regiões do país, em busca de sobrevivência. Naquela ocasião - imagino que seus pais, mães, avôs e avós não tenham lhes contado – foram criados campos de concentração, vigiados por policiais, para a enorme quantidade de mendigos/as que perambulavam pelas ruas das cidades, com fome. A única diferença dos campos de concentração do regime nazista, é que não havia câmaras de gás. Mas creio eu que a medida não foi necessária, dado que morriam mesmo de inanição, de doenças, amontoados nas barracas de lona e seus corpos eram jogados nas estradas.

Se você acredita que a desigualdade em nosso país, assim como no Chile, foi programada para beneficiar uma casta, mas que podemos ter um país onde a população tenha acesso às políticas necessárias a uma vida digna, faça como a juventude chilena: Não se Conforme. Tome uma atitude!

1 Nome dado a um grupo de 25 jovens economistas que formularam a política econômica de Pinochet. Foram os pioneiros do pensamento liberal, antecipando no Chile, em quase 10 anos, medidas que só mais tarde seriam adotadas por Margareth Thatcher, no Reino Unido.