Numa época em que os agricultores e agricultoras do Ceará não tinham sementes para plantar e precisavam trabalhar de graça para conseguí-las, a sociedade civil uniu-se pela criação de bancos comunitários de sementes crioulas. Iniciada pelo Esplar em 1991, a Rede de Intercâmbio de Sementes, RIS, chegou a congregar mais de 14 mil pessoas em 15 municípios.

Publicado em Memórias do Esplar
Quarta, 07 Junho 2017 00:29

Memórias do Esplar. Os primeiros anos

Foto: Agricultores em Crateús, 1976. (Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima)

No ano de 1974,  em muitas localidades rurais do estado, as pessoas viviam em extrema injustiça social e pobreza. Ignoradas pelo poder público, sofriam de desnutrição e diversas doenças que eram agravadas pela omissão no atendimento de Saúde. Também a exploração de trabalho pelos donos das terras limitava a vida das famílias agricultoras e as impedia de conseguir melhor alimentação, moradia e remuneração.

Em meio às dificuldades daquele período, entrecortado por anos de seca, a Igreja Católica realizava um trabalho de promoção humana na região de Crateús e tentava mostrar ao povo rural a organização comunitária como uma alternativa de melhoria de vida.

O Projeto de Educação Pré-Cooperativista era liderado pelo Bispo  Dom Antônio Batista Fragoso, "uma pessoa comprometida com os pobres marginalizados, que lutava para construir um mundo melhor e mais justo", define o fundador do Esplar, o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima. Naquela região, 43 anos atrás, a convite de Dom Fragoso, a ONG iniciou sua trajetória.

Os profissionais da Diocese de Crateús incentivavam os trabalhadores e trabalhadoras rurais a fazer mutirões para o plantio de hortas, roçados e farmácias naturais, estimulavam a formação de cooperativas e davam assistência às famílias na prevenção de doenças. Foi também nesta década que, pela primeira vez,  foram organizados bancos coletivos de sementes para acabar com a necessidade de contrair empréstimos com patrões para poderem iniciar o plantio.

Durante três anos, o Esplar acompanhou este trabalho, avaliou suas ações, analisou o contexto social dos locais onde era implementado e propôs alternativas para aprimorá-lo.

“Uma equipe da Diocese visitava as comunidades buscando trabalhar a organização ligada à Saúde, sindicalismo e as questões ligadas com a terra. Nós tínhamos reuniões com esse grupo e íamos para o campo. Ficávamos dois ou três dias nas comunidades e depois fizemos relatórios, que foram apresentados e discutidos”, afirma Pedro Jorge.

No tempo de Dom Fragoso

Joana Damasceno  lembra das reuniões “do tempo de Dom Fragoso”. Por volta de 1979, a agricultora  morava em Tamboril, município vizinho a Crateús, e participava dos encontros onde, pela primeira vez,  ela leu uma cartilha de formação política. "Foi um tempo de formação para mim, eu tinha o interesse de aprender, saber e ver no que aquilo ali ia dar mais na frente", explica.

A partir daí, ela começou a entender a necessidade de os agricultores e agricultoras enfrentarem as tantas injustiças que viviam. “Eu me interessei porque a gente morava em terra de patrão e pagava renda.  Era um período muito difícil, não tinha água, família pequena, era muito sofrimento. A gente não dormia à noite procurando água. Eu aprendi um pouquinho a ler nessas cartilhas, havia formação política, ah mas foi bom...”, recorda Dona Joana.

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Há 26 anos, o Esplar, Centro de Pesquisa e Assessoria apoia comunidades rurais no Ceará a produzir algodão agroecológico.  Conheça nossa cronologia:

 

1990 -  GRUPO DE PESQUISA DO ALGODÃO
A partir do desafio do agricultor Veríssimo, o Esplar passou a mediar uma pesquisa conjunta com cultivadores de algodão em vários municípios do Ceará para resgatar a tradição do plantio do algodoeiro mocó e apresentar alternativas para superar o problema da infestação do inseto bicudo (Anthonomus grandis). O trabalho resultou na publicação de um manual, acesse “Algodão Mocó: Um Novo Sistema de Produção” 

1992 -  INÍCIO DOS CONSÓRCIOS
As comunidades parceiras do Esplar adaptam os roçados de algodão para o consórcio agroecológico. O cultivo misto do algodão junto com o milho, o gergelim e outras variedades de plantas melhora a produtividade e protege o solo. Em parceria com a Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), Esplar realiza diagnóstico participativo com sindicato de trabalhadores e trabalhadoras rurais e elabora Plano de Desenvolvimento Agroecológico.

1993 -  SURGEM COMPRADORES
O Esplar auxilia a negociação de venda para o Greenpeace da primeira safra de algodão agroecológico dos grupos de agricultores que acompanha. Também neste ano, a ONG acompanha a aquisição de uma máquina de descaroçamento e os treinamentos para que a ADEC de Tauá pudesse realizar autonomamente o trabalho de beneficiamento da pluma de algodão. Veja notícias : Camiseta Ecológica - Jornal do Brasil 

2003  - COMÉRCIO JUSTO
A Justa Trama, cooperativa de confecção de roupas, e a Veja, empresa francesa de sapatos ecológicos, buscam fornecimento de algodão orgânico no Ceará e conseguem, com a mediação do Esplar, comprar safras anuais da agricultura familiar. As negociações são feitas seguindo parâmetro do comércio justo e valorização o trabalho dos produtores que seguem dos princípios agroecológicos. Veja notícias

2008 - AMPLIAR A PRODUÇÃO
O Esplar é convidado pelo Projeto Dom Helder Câmara para partilhar sua experiência de capacitar agricultores/as na produção e venda do algodão agroecológico. A ONG integrou este projeto do Ministério do Desenvolvimento Agrário, proporcionando cursos sobre os consórcios agroecológicos para a equipe da Embrapa e fazendo a aproximação com as empresas compradoras do algodão, entre outras ações. Leia artigo: Algodão Agroecológico no Comércio Justo:  Fazendo a Diferença.

2016 - NOVAS PARCERIAS
A escassez de chuvas tem enfraquecido a cultura do algodão nos últimos anos. Para ajudar os produtores e produtoras a contornar este agravamento das mudanças climáticas, o Esplar inicia, em parceria com o Instituto C&A, o Projeto Consórcios Agroecológicos com algodoeiro Mocó. 80 famílias agricultoras terão assistência técnica para o cultivo desta espécie resistente à estiagem.

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Fotos registram as dificuldades de acesso à água antes da construção de cisternas para abastecimento de famílias do semiárido

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