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O despertar de um quilombo

Segunda, 01 Abril 2019 15:56

A Casa de Semente da comunidade quilombola da Base foi implantada pelo Esplar por meio do Programa Sementes do Semiárido

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Para as 500 famílias que vivem na comunidade da Base, em Pacajus, a descoberta de sua origem quilombola foi um despertar e um fortalecimento de sua ancestralidade. O sobrenome Silva que os moradores carregam é mais um sinal do forte laço de parentesco que todos na comunidade compartilham. São 500 famílias que, no fundo, são apenas uma. A família Silva é descendente de Negro Cazuza, que chegou à região correspondente aos municípios de Horizonte e Pacajus no final do século XIX.

A maioria dos descendentes de Negro Cazuza vive no quilombo Alto Alegre, em Horizonte. José Raimundo e Irene Chagas, avós maternos de Sebastião Francisco da Silva (43 anos), foram os que primeiro chegaram ao território onde hoje existe o quilombo Base. “Passaram as gerações e a gente só foi descobrir mesmo que era quilombola em 2005. Chico César, prefeito de Horizonte na época, andando por Brasília, viu que no Ceará tinha quilombola. Quando fizeram a pesquisa em Alto Alegre disseram, então, a Base também é, porque é a mesma família”, relembra Sebastião.

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Atualmente, a comunidade comemora mais uma conquista, a construção da Casa de Semente Vô Vicente, nomeada em homenagem a Manuel Vicente da Silva, com 93 anos. Mesmo antes da casa, os moradores já compartilhavam a tradição de guardar sementes para garantir o plantio dos anos posteriores. “O meu pai selecionava tudo. Guardava as sementes na garrafa, no tambor. Todos os anos, ele guardava. Ele dizia que tinha que selecionar para guardar e se prevenir”, conta Sebastião.

Grande parte da comunidade começou a trabalhar no roçado ainda criança com seus pais. Com Maria das Graças da Silva (58 anos) não foi diferente. “Comecei a trabalhar no roçado com seis anos. Meu pai me levava. Ele me ensinou a guardar semente de feijão, milho, jerimum, macaxeira. Passo os ensinamentos para os meus filhos, que também trabalham comigo. Eu sou assim. Apanho feijão, seco, desbulho. Boto tudo escolhido dentro do tambor. Eu mesma faço. Não espero não”, afirma Maria das Graças, nascida e criada na Base.

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Com trajetória diferente de Maria, que viveu a vida inteira na comunidade, Luiza Chagas da Silva (62 anos) migrou já adulta e passou quase três décadas morando em Fortaleza, onde criou seus filhos. Há 11 anos, voltou para cuidar dos pais, já falecidos, e continuou na mesma luta de antes de partir. “Saí daqui, casei, passei um tempo morando em Fortaleza, depois voltei. Mas tudo de roçado eu sei fazer. Planto feijão, desbulho. Nunca perdi a prática. Faço tudo”, garante Luiza. Hoje, ambas são sócias da Casa de Semente Vô Vicente. Apesar da idade, Vô Vicente faz roçado todos os anos e é guardião de sementes, abastecendo famílias que perderam suas sementes. A homenagem se deu justamente por ele ser um símbolo da agricultura familiar e das sementes crioulas.

A libertação do uso de agrotóxicos é uma meta ansiada pelas sócias e pelos sócios da casa. “Seria bem melhor se todos se acostumassem a não usar veneno. Depois que começou a usar, trouxe muitos problemas de saúde. Eu lembro que, quando eu era pequeno, não tinha os problemas de saúde que tem hoje. O que traz problema de saúde para gente é a alimentação que a gente consome”, ressalta Francisco Dionísio da Silva (53 anos). O agricultor relembra que, como antes trabalhava em terra de patrão, tinha que se submeter às condições por ele imposta, inclusive o uso do veneno. “Hoje, como é diferente, a gente já tem um cantinho para morar, um pedacinho de terra, mesmo que seja bem pequeninho, a gente planta e colhe para gente mesmo. Não tem que dividir com patrão nem nada”, conclui.