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A semente certa na hora certa

Quarta, 12 Junho 2019 10:23

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A semente é o que dá vida à agricultura. Sem a semente sob a terra banhada pela chuva, o milho, o feijão, o gergelim e qualquer outro vegetal não brotam para a superfície. Mais do que um pequeno alimento, a semente é sinônimo de liberdade para a agricultora e o agricultor plantarem na hora certa, logo após as primeiras chuvas. A espera pela semente para plantar angustiou o agricultor João Batista Chaves, 51 anos, conhecido como Dão, por mais de uma década em sua pequena propriedade, na comunidade rural Poço Escuro, em Acarape.

As sementes distribuídas pelo governo costumavam chegar com meses de atraso. Através da janela de sua casa, Dão olhava com tristeza para aquilo que sempre foi sinal de alegria para ele, a beleza do céu dominado pela escuridão das nuvens e a chuva que caía intensamente. Era um sentimento que contrastava com a vontade de voltar para o campo, que levou dentro de si durante toda a juventude. “Eu nunca me acostumei com a cidade. Estava acostumado com a terra. Quando chovia, me dava aquela saudade. Aqui no Poço Escuro, a gente era livre. A minha vontade era essa. Voltar para onde eu nasci”, relembra Dão, que foi morar na sede do município de Acarape com oito anos para poder estudar.

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A vontade de retornar às origens persistiu até que chegou a oportunidade de ter sua própria terra. Zacarias Avelino Chaves, pai de Dão, era membro da Associação do Mamoeiro, responsável por articular o financiamento da propriedade que hoje é a comunidade Poço Escuro. Dão assumiu o compromisso e mudou-se para a região, em 2007. “Nós tivemos três anos de carência para começar a pagar, mas já tínhamos vindo para cá. Tem nove anos que pagamos e doze que moro aqui”, conta Dão. No começo, tudo era mato. A terra estava abandonada há 20 anos. Dão e os outros pioneiros precisaram desbravar o local. No primeiro ano, viveram em barracas, sem energia elétrica, à luz de lamparina.

Com a construção da casa e chegada da energia elétrica, ainda havia o problema do acesso à água. “Tinha muita dificuldade de água. No começo, a gente ia buscar água em um açude que tem aqui perto. Com a chegada da cisterna melhorou tudo”, afirma Dão. Após dois anos vivendo no Poço Escuro, Dão foi agraciado com a construção de uma cisterna de primeira água por meio do projeto São José. De lá para cá, foram 10 anos lutando para ter água e sementes para produzir. Por isso, quando chegou a proposta de aderirem à terceira etapa do Programa Sementes do Semiárido para a implantação de uma Casa de Sementes em Poço Escuro, Dão não pensou duas vezes antes de aceitar a ideia.

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Durante as capacitações promovidas pelo programa, Dão e seus companheiros refletiram sobre os males dos agrotóxicos e os riscos das sementes transgênicas. Também foi construída pelo programa uma cisterna de produção na terra de Dão, que a batizou de “segunda mãe”. “Se não tivesse a cisterna não seria possível fazer o canteiro. A gente até tentou antes, mas o cheiro-verde não cresceu por falta de água. Agora, eu planto cheiro-verde, cebolinha, alface, quiabo, acerola, jerimum, milho. E eu vou incluir mais outras plantas. Mamão, cana. De tudo eu vou plantar um pouquinho. Eu quero fazer um quintal produtivo bem beleza para chamar a atenção de quem venha aqui”, planeja.

A guarda das sementes sempre foi uma tradição para a família de Dão, que cresceu vendo o pai e os tios guardarem as sementes para plantar no ano seguinte. “Meu pai guardava a semente no paiol ou pendurada na beira do fogo. O paiol era feito de palha ou de vara. Colocava cinza por cima. Às vezes, colocava uma vara em cima do fogão e colocava a semente em cima para pegar a fumaça, assim não tinha perigo de ficar ruim”, explica. A inauguração da Casa de Semente fortalecerá o resgate das sementes crioulas na comunidade Poço Escuro e dará segurança e liberdade para os 20 associados investirem em sua produção. “A casa de semente sem dúvida vai ser uma das melhores coisas que o Poço Escuro vai ganhar. Nós vamos resgatar não só as nossas sementes antigas como vamos ter a semente na hora certa de plantar. Daqui para frente, a gente vai ter a semente na hora certa”, comemora.

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