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Desde 2003, agricultoras e agricultores de Choró produzem algodão em consórcios agroecológicos

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Uma geração de agricultoras e agricultores do Sertão Central cearense traz, em suas memórias de infância, a dura realidade vivida por seus pais na época da, popularmente conhecida, “meia do algodão”. A prática de entregar metade de toda a produção de algodão para o dono da terra onde vivam as famílias de agricultores era resultante de injustas condições de trabalho e comércio. Além da superação dessa prática, essa geração herdou de seus pais os conhecimentos sobre o cultivo de algodão Mocó, chamado de ouro branco.

A partir de 1993, o Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria e a Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec) passaram a incentivar o cultivo em consórcios agroecológicos de algodão e outras culturas, como feijão, milho e gergelim. É o que acontece há 15 anos na comunidade Riacho do Meio e no assentamento São João da Conquista, no município cearense de Choró. Em 2003, por intermédio do Esplar e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (STRAAF), iniciou-se a produção de policulturas em consórcios utilizando técnicas agroecológicas, como uso de protetores naturais, conservação do solo e da água e adubação orgânica.

O Ceará chegou a ser o 2º maior produtor de algodão do Brasil, ocupando 1.250.000 hectares em 1981, conforme o agrônomo Pedro Jorge B. F. Lima. No entanto, a época do auge também representou condições injustas de trabalho impostas pelos fazendeiros. “Quando eu era pequena, meu pai já plantava o algodão. Mas ele plantava na época da meia do patrão. A gente era morador. A metade da produção era do fazendeiro. Era o fazendeiro que pesava e fornecia (gêneros alimentícios). Tinha o comércio para fornecer”, relata Eliane Lobo Ramos, do assentamento São João da Conquista e atual presidente do STRAAF de Choró.

Eliane acompanhou de perto o início dos consórcios no município e atuou na articulação do projeto durante o primeiro ano, implantando seu próprio consórcio no ano seguinte. “Estava naquele período em que o pessoal só plantava algodão se tivesse veneno. O banco financiava o custeio agrícola para o algodão, mas já vinha no pacote o veneno. A gente não queria, mas, para ir ao banco, tinha que ter o veneno”, relembra. O agricultor João Alberto Pinheiro, da comunidade de Riacho do Meio, tem na pele as marcas dessa época. Ele se submeteu às exigências de um banco para conseguir financiamento para o cultivo do algodão e apresenta cicatrizes por exposição ao veneno no rosto e nos braços.

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João Alberto, também conhecido como Beto, revela que recebeu laudo técnico com a exigência do uso do veneno. “Antes mesmo de trabalhar com o Esplar, eu já tinha abandonado o veneno porque queimei o meu rosto. Tenho até umas manchinhas aqui e acolá. Eu desentupi a máquina, esqueci e passei a mão no rosto. Parei no médico”, relata Beto. O agricultor revela ainda que a produção não foi boa naquele período e não teve retorno. “Usando esse veneno, eu só produzi duas arrobas em dois hectares. Peguei 33 sacos de milho e vendi para pagar o banco para não ficar endividado porque o algodão não compensou. Não queria usar veneno, mas era a técnica deles”, desabafa Beto.

Em 2002, as agricultoras e os agricultores de Choró buscavam alternativas para essa situação quando Marcus Vinicius de Oliveira, atual diretor-presidente do Esplar, sugeriu que eles se inspirassem em experiências exitosas de Tauá e fizessem intercâmbios para conhecê-las e replicá-las. “Marcus disse que podia articular uma visita à Tauá. Um grupo de lá trabalhava com consórcio agroecológico. A gente conversou sobre a possibilidade de implantar em Choró algo parecido”, narra Eliane.

De acordo com Eliane, 12 pessoas foram a Tauá no dia 2 de agosto daquele mesmo ano. Do grupo, sete agricultores resolveram iniciar o plantio em 2003. Quatro deles fizeram uma área coletiva em São João da Conquista; e os outros três agricultores iniciaram os consórcios na comunidade de Caiçarinha. No ano seguinte, também participaram seis pessoas de Riacho do Meio, entre elas, João Alberto. A partir daí, vários intercâmbios e formações foram realizados entre Choró e outros municípios.

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Jornalistas europeus visitaram o Esplar para uma roda de conversa sobre algodão agroecológico com o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima, fundador da entidade

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Agricultores familiares que cultivam algodão agroecológico no sertão do Ceará integram um ciclo de moda sustentável e comércio justo entre Brasil e França. O cultivo do algodão cearense ganhou nova perspectiva com a visita do empresário francês François-Ghislain Morillion, em 2004. O francês buscou o Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria para intermediar a compra de algodão agroecológico para a fabricação de tênis destinados aos consumidores europeus. Juntamente com seu sócio Sébastien Kopp, François havia fundado a empresa Veja Fair Trade, posteriormente com filial no Brasil batizada de Vert Shoes.

Para iniciar a produção, a empresa dependia de encontrar fornecedores de algodão ecológico. A solução foi encontrada no Ceará, onde agricultores de Tauá colhiam esse produto para comercializá-lo no mercado nacional há 11 anos. No entanto, antes de chegarem ao Ceará, eles rodaram o mundo visitando vários países para conhecer experiências de produção de algodão com comércio justo e ficaram bastante decepcionados com o que encontraram: condições de trabalho bastante precárias. “Percebemos que a globalização estava errada. Esses trabalhadores estavam fazendo as roupas que estávamos vestindo todos os dias; Roupas que as pessoas que conhecíamos, nossas famílias, nossos amigos, usavam todos os dias. Algo realmente deu errado”, relembram os franceses na página oficial da empresa.

Após a aquisição das três primeiras toneladas de algodão agroecológico cearense, fornecido pela Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), a Veja produziu o primeiro lote de tênis da marca francesa no Rio Grande do Sul, com cinco mil pares lançados em Paris em janeiro de 2005. “No Nordeste brasileiro, descobrimos os princípios por trás da agroecologia: tornar o solo mais rico após a colheita, em vez de prejudicá-lo. No primeiro contrato, pagamos o dobro do preço de mercado. Eles (os agricultores) não entenderam, achavam estranho”, relatam os franceses. “Três toneladas de algodão orgânico, compradas de acordo com os princípios do comércio justo: pagamos antecipadamente as colheitas, a um preço fixado num contrato de três anos”, explicam.

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De lá para cá, a relação entre a Veja/Vert e a Adec se fortaleceu, dando fôlego e incentivo para que outros municípios também investissem na produção do algodão agroecológico. A convite dos empresários franceses, uma comitiva de jornalistas europeus visitou o Esplar no último 23 de maio para uma roda de conversa com o agrônomo Pedro Jorge Bezerra Ferreira Lima, fundador da entidade. Acompanhada por Sébastien Kopp, a comitiva composta por jornalistas, fotógrafos e blogueiros da França, Bélgica e Holanda vieram ao Ceará para conhecer a produção de algodão agroecológico de agricultoras e agricultores familiares de Tauá, organizados pela Adec.

Pedro Jorge fez uma exposição sobre a história do Esplar, desde sua fundação em 1974 aos dias atuais, e destacou a prática da Agroecologia iniciada por volta de 1990, em especial, a produção de algodão agroecológico, há 25 anos produzido em diferentes municípios cearenses. “A Agroecologia não é apenas a aplicação dos conceitos da ecologia para a agricultura. É muito mais do que isso. Essa prática fez com que milhares de pessoas deixassem de usar veneno e agrotóxicos, de queimar o solo para prepara-lo. Agroecologia é vida. Pressupõe também relação justa de comércio”, afirmou Pedro aos jornalistas.

De acordo com Pedro Jorge, o Ceará já foi o segundo maior produtor de algodão do Brasil, ocupando 1.250.000 hectares em 1981. Já em 2017, a plantação de algodão no Estado chegou a apenas 495 hectares, conforme Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por outro lado, na época do auge do algodão, as condições de trabalho impostas pelos fazendeiros eram muito injustas. “A produção estava nas mãos de grandes proprietários e feita por famílias que viviam em suas fazendas. Havia a obrigatoriedade de os agricultores pagarem 50% da produção como renda da terra. Era uma relação injusta de trabalho. Esse sistema tinha suas repercussões sociais, econômicas e políticas”, garantiu o fundador do Esplar.

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Os grandes proprietários de terra tinham muita influência no poder local, conforme Pedro Jorge, e conseguiam eleger prefeitos, vereadores, governadores e até senadores. “Diante dessa realidade, o movimento sindical de trabalhadores rurais começou a questionar esse modelo de divisão da produção. Por que essa família que se dedicava à produção tinha que dividir a metade com o patrão?”, levantou o questionamento durante conversa com a comitiva. “Houve um luta pelo não pagamento dessa renda injusta. Os fazendeiros, então, passaram a proibir a produção do algodão em suas terras”, relatou. Juntando a degradação do solo, a praga do bicudo em 1985 e a proibição dos fazendeiros, a produção de algodão no Ceará enfrentou seu declínio a ponto de quase desaparecer.

Depois de uma pesquisa participativa com agricultores de vários municípios, o Esplar chegou conjuntamente com eles a uma nova proposta de cultivo do algodão em bases ecológicas. “Como resultado do primeiro ano de trabalho, foi elaborada uma proposta de como cultivar o algodão agroecológico. Havia uma massa grande de agricultores que não usavam agrotóxicos, mas, por outro lado, queimavam a terra, não usavam técnicas de conservação do solo. Havia maior interesse entre os agricultores que não usavam agrotóxicos. Os que usavam eram menos abertos às técnicas agroecológicas”, contou Pedro Jorge.

Também contribuíram com o debate a sócia-fundadora Elzira Saraiva, que falou sobre água e qualidade de vida; o coordenador Ronildo Mastroianni, que contou detalhes sobre a primeira visita de François-Ghislain Morillion a Tauá; a coordenadora Andréa Sousa, que comentou as ações do Esplar para a superação das desigualdades de gênero; e o técnico Waldemar Tillesse, que abordou o atual projeto “Consórcios Agroecológicos com o Algodão Mocó: uma alternativa em tempos de mudança climática”, desenvolvido pelo Esplar em parceria com o Instituto C&A. Em 2017, 47 agricultoras e agricultores beneficiários do projeto produziram em seus consórcios 5.146 quilos de algodão em rama.

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Após a roda de conversa, a comitiva de jornalistas seguiu viagem até Tauá para conhecer as instalações da Adec e conversar com as agricultoras e os agricultores. “Em 6 dias, percorri mais de 21312 km, peguei 5 aviões, passei horas e horas em micro-ônibus nas estradas brasileiras, descobri paisagens de tirar o fôlego e, mais importante, descobri os bastidores de @veja uma empresa humana, eco responsável criada por @sebastien_kopp e @fgmorillion em 2004. Seu credo? ‘Se o mundo tem que mudar, não é a economia, mas o viés dos negócios’. E pude ver o trabalho deles no chão: na fábrica fazendo tênis, nos campos de algodão orgânico, e nos depoimentos de seus parceiros no local (ONGs, agricultores e cooperativas)”, relatou em seu Instagram Valerie Tribes, jornalista do Le Chiffon y Grazia.

No último sábado (23), o jornal Le Parisien publicou reportagem sobre a Veja Shoes e o algodão agroecológico cearense. “Desde 2004, mais de 180 toneladas foram adquiridas pela Veja, diretamente dos agricultores. Uma vez colhidas, as preciosas bolas brancas são enviadas não muito longe dali, em uma cooperativa que, usando uma máquina, separa as sementes do algodão. A matéria-prima é então fiada e tecida, antes de ser enviada a Porto Alegre, a mais de 3.000 quilômetros de distância”, relata a reportagem de autoria do jornalista Airy Aubry, que viajou ao Brasil a convite da Veja.

Leia aqui reportagem completa do Le Parisien

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A convite do movimento internacional Fashion Revolution, que busca conscientizar consumidores sobre os prejuízos sociais e ambientais  causadas pela indústria da moda, o Esplar, Centro de Pesquisa e Assessoria participou das feiras bienais Maquintex, Signs Nordeste e Femicc 2017, realizadas no Centro de Eventos do Ceará de 3 a 6 de outubro .

O evento reuniu empresas para lançar produtos, serviços e inovações para a Indústria Têxtil, de Impressão Digital, Sinalização e Serigrafia e Indústria Coureiro-Calçadista. Em 2017, o método de consórcios agroecológicos orientado pelo Esplar a 112 famílias agricultoras no Sertão Central e Sertão dos  Inhamuns resultou na produção de  mais de 9750 quilos da pluma de algodão cultivada sem a utilização de agrotóxicos. Leia Mais Organizações do setor têxtil investem em cultivo de algodão agroecológico no Ceará

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Há 26 anos, o Esplar, Centro de Pesquisa e Assessoria apoia comunidades rurais no Ceará a produzir algodão agroecológico.  Conheça nossa cronologia:

 

1990 -  GRUPO DE PESQUISA DO ALGODÃO
A partir do desafio do agricultor Veríssimo, o Esplar passou a mediar uma pesquisa conjunta com cultivadores de algodão em vários municípios do Ceará para resgatar a tradição do plantio do algodoeiro mocó e apresentar alternativas para superar o problema da infestação do inseto bicudo (Anthonomus grandis). O trabalho resultou na publicação de um manual, acesse “Algodão Mocó: Um Novo Sistema de Produção” 

1992 -  INÍCIO DOS CONSÓRCIOS
As comunidades parceiras do Esplar adaptam os roçados de algodão para o consórcio agroecológico. O cultivo misto do algodão junto com o milho, o gergelim e outras variedades de plantas melhora a produtividade e protege o solo. Em parceria com a Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), Esplar realiza diagnóstico participativo com sindicato de trabalhadores e trabalhadoras rurais e elabora Plano de Desenvolvimento Agroecológico.

1993 -  SURGEM COMPRADORES
O Esplar auxilia a negociação de venda para o Greenpeace da primeira safra de algodão agroecológico dos grupos de agricultores que acompanha. Também neste ano, a ONG acompanha a aquisição de uma máquina de descaroçamento e os treinamentos para que a ADEC de Tauá pudesse realizar autonomamente o trabalho de beneficiamento da pluma de algodão. Veja notícias : Camiseta Ecológica - Jornal do Brasil 

2003  - COMÉRCIO JUSTO
A Justa Trama, cooperativa de confecção de roupas, e a Veja, empresa francesa de sapatos ecológicos, buscam fornecimento de algodão orgânico no Ceará e conseguem, com a mediação do Esplar, comprar safras anuais da agricultura familiar. As negociações são feitas seguindo parâmetro do comércio justo e valorização o trabalho dos produtores que seguem dos princípios agroecológicos. Veja notícias

2008 - AMPLIAR A PRODUÇÃO
O Esplar é convidado pelo Projeto Dom Helder Câmara para partilhar sua experiência de capacitar agricultores/as na produção e venda do algodão agroecológico. A ONG integrou este projeto do Ministério do Desenvolvimento Agrário, proporcionando cursos sobre os consórcios agroecológicos para a equipe da Embrapa e fazendo a aproximação com as empresas compradoras do algodão, entre outras ações. Leia artigo: Algodão Agroecológico no Comércio Justo:  Fazendo a Diferença.

2016 - NOVAS PARCERIAS
A escassez de chuvas tem enfraquecido a cultura do algodão nos últimos anos. Para ajudar os produtores e produtoras a contornar este agravamento das mudanças climáticas, o Esplar inicia, em parceria com o Instituto C&A, o Projeto Consórcios Agroecológicos com algodoeiro Mocó. 80 famílias agricultoras terão assistência técnica para o cultivo desta espécie resistente à estiagem.

Publicado em Memórias do Esplar