O Vazio Sanitário do algodão é uma prática regulamentada pela Portaria nº 22/2020 da ADAGRI/CE, que prevê a retirada de todos as plantas de algodão do roçado para evitar a proliferação de insetos como o bicudo, que atacam o algodoeiro durante a floração. Em 2026, o período estabelecido para a realização da limpeza do roçado é 15 de outubro a 31 de dezembro.
Durante o ciclo, de acordo com a Portaria, não é permitido manter plantas vivas de algodão no roçado. Como explica Ronildo Mastroianni, diretor técnico do Esplar, essa é uma prevenção que precisa ser feita de forma coletiva:
O bicudo utiliza, principalmente, botões florais e outras estruturas reprodutivas do algodoeiro para se alimentar. Quando retiramos essas plantas, dificultamos a reprodução do inseto e os riscos de ataques na safra seguinte. É uma medida que protege não apenas uma família, mas toda uma comunidade”.
O projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos possibilita formação e o acompanhamento técnico de 126 famílias em 11 municípios do Ceará. Samara Santos, coordenadora de projetos do Esplar, afirma que, durante a execução do projeto, a equipe do Esplar orienta as pessoas participantes sobre o manejo agroecológico, a prevenção e o controle dos insetos e sobre a colheita:
“Esse trabalho começa antes da colheita e continua nos cuidados posteriores. Entre as recomendações no processo, conscientizamos sobre vazio sanitário, que é reforçado com antecedência para que as famílias possam se organizar e realizar a retirada das plantas de algodão dentro do prazo estabelecido”, explica a coordenadora.
O Grupo Agroecologia e Mercado (GAM) potencializa as atividades do vazio sanitário em três territórios cearenses. A rede é construída pela articulação entre agricultores e agricultoras familiares, organizações de assessoria técnica e empresas compradoras comprometidas com práticas sustentáveis.
Nessa atuação em rede, destacam-se três associações territoriais: Associação Agroecológica de Certificação Participativa Inhamuns/Crateús (ACEPI), Associação de Certificação Participativa Agroecológica (ACEPA) e Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (ADEC). Elas mobilizam as agricultoras e agricultores para a produção e a comercialização do algodão de base agroecológica, juntamente ao Esplar.
Samara explica que, nos consórcios agroecológicos, a retirada dos algodoeiros não impacta outras culturas que são cultivadas em conjunto, como o feijão, o gergelim, o milho, dentre outras.
“Este é um processo específico para o algodoeiro, não significa eliminar as demais culturas, nem deixar o solo descoberto. Muitas famílias aproveitam a rama verde do algodoeiro como alternativa na alimentação dos animais. Além disso, os restos vegetais, quando manejados adequadamente podem contribuir para a cobertura do solo”, aconselha a coordenadora.
Segundo Mastroianni, o vazio sanitário também é adotado pelo agronegócio, mas, no manejo agroecológico, a prática ganha maior impacto:
“Na agroecologia, buscamos fortalecer o equilíbrio dos agroecossistemas e reduzir a dependência de insumos externos, principalmente agrotóxicos. Porém, precisamos compreender que o bicudo não reconhece cercas, nem sistemas de produção, por isso, o vazio sanitário precisa ser uma ação territorial”.
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